Ouvir o outro para melhorar o mundo: 5 passos para aprender a escutar de verdade

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Precisamos ser empáticos e ter escuta ativa e isso não é apenas um clichê (Arte: Fer Ilustra/Yahoo Brasil)
Precisamos ser empáticos e ter escuta ativa e isso não é apenas um clichê (Arte: Fer Ilustra/Yahoo Brasil)

Um vizinho que perdeu um familiar. A amiga com dificuldades para conseguir trabalho. O tio aposentado que compartilha teorias do complô. Você é daqueles que liga para conversar ou dos que deixa de fazer a ligação por achar que não tem nada a dizer?

Criar um momento para escutar o outro talvez seja o melhor que você possa fazer pela pessoa, por si mesmo e, por que não, pelo mundo.

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Numa sociedade em que ter opinião e respostas para tudo parece ser a norma, promover um espaço livre de julgamentos, de certos e errados, abre a porta para o acolhimento e para um ambiente de diálogo.

Um estudo experimental publicado no renomado jornal científico Personality and Social Psychology Bulletin em 2016 mostrou que o nível de atenção dado pelo ouvinte a uma conversa altera a reação e a atitude de quem está sendo ouvido. Pesquisadores da Universidade Hebraica de Jerusalém mostraram que quem conversa com ouvintes empáticos apresenta menor taxa de ansiedade, age de maneira menos defensiva e tem maior capacidade de reconhecer contradições e abrir-se para outras ideias do que quem fala a ouvintes desatentos.

Mas o que é ouvir de verdade o outro? A escuta empática exige mais do que atenção à fala, mas um esforço consciente para explorar a perspectiva do outro e conseguir se colocar em sua pele.

“Escutar empaticamente é ouvir para compreender, para acolher, e não para responder a pessoa ou para dar uma solução para o problema do outro”, define a psicóloga Jaqueline Giordani, pesquisadora do Núcleo de Estudos em Avaliação Psicológica e Psicopatologia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

O benefício não é só para quem está sendo ouvido. “Estar ali para os outros é uma forma até de matar dois coelhos com uma cajadada, pois auxiliar outra pessoa tem efeito muito positivo sobre a saúde mental do outro e sobre a sua também, que se sente útil”, afirma Giordani.

Confira seis lições para ser um ouvinte mais empático:

1. Abrir um espaço de conversa e conexão

O primeiro passo é promover uma ocasião para que a conversa aconteça, o que pode ser feito com uma ligação diretamente para a pessoa, no caso de alguém próximo, mas também com uma mensagem para alguém menos próximo dizendo que você está ali aberto para ouvi-la.

Parece banal, mas nem sempre o outro se sente capaz de pedir ajuda.

Segurando a Onda (Arte: Fer Ilustra/Yahoo Brasil)
Segurando a Onda (Arte: Fer Ilustra/Yahoo Brasil)

Uma ligação é melhor do que várias mensagens de Whatsapp, assinala Daniella Pires Nunes, coordenadora do projeto Escuta Solidária, da Unicamp, em que jovens ligados à universidade ligavam a cada quinze dias para acompanhar idosos durante o ano de 2020.

“Na troca ali rápida de mensagens, muitas vezes as pessoas não vão expressar realmente seus sentimentos, suas dúvidas ou aquilo que ela precisa desabafar”, comenta a professora de enfermagem da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

No projeto universitário, as conversas, entre pessoas que não se conheciam, começavam por um roteiro de perguntas sobre a vida do outro até encontrar pontos de conexão. Para duas pessoas que já se conhecem, o importante é iniciar a conversa por pontos que as aproximem e não que as diferenciem.

“Encontrar similaridades, reconhecer que o outro também vive ou sofre como eu pode facilitar esse processo de acolhida e fortalecer os laços”, afirma Nunes.

2. Ouvir sem buscar respostas

É preciso atenção para escutar sem estar sempre esperando o momento para responder de pronto, ou pior, até interromper o outro para dar sua opinião. O que a pessoa precisa muitas vezes não é de conselhos, mas de um espaço para falar.

A conversa deve representar conforto e atenção e uma das maneiras de mostrar que você está acompanhando a escuta é dar sinais ao longo da conversa, inclusive retomando palavras ou trechos do que o outro disse. A repetição indica que a mensagem foi ouvida e coloca no centro a fala do outro.

Em conversas sensíveis, o espaço para o silêncio pode ser essencial. “Deixar uma brecha de silêncio às vezes faz com que a pessoa continue a falar coisas que ela até então não tinha tido coragem de dizer. Dá a chance para ela desabafar”, explica a psicóloga.

3. Validar o que o outro diz

Para acolher o outro, é importante validar seus sentimentos, ainda que eles não se reflitam em você. Se alguém está contando de sua tristeza ou de sua raiva devido a um determinado episódio, dizer que ele não deveria se sentir assim ou que não tem razão para aquela resposta não ajudará a prosseguir a conversa ou fazer a pessoa se sentir bem.

O cuidado é tão mais importante quanto a pessoa se sentir pouco compreendida pelas pessoas em seu entorno.

“Isso não vai fazer com que a pessoa se sinta acolhida. Ao contrário, pode dar o sentimento de apagamento do que ela está contando, que aquilo não está sendo ouvido e, neste caso, de que adianta falar?”, exemplica Giordani.

Uma saída neste caso é dizer que você percebe que ela está triste ou nervosa ou que compreende seus sentimentos, podendo mais tarde, ao longo da conversa, apontar outras possibilidades de interpretação ou de reação para o mesmo caso.

4. Perguntar como forma de entender

Compreender o ponto de vista do outro é a base da empatia e, para isso, é preciso pedir esclarecimentos antes de chegar a conclusões.

Perguntas como “o que você sentiu”, “o que te levou a”, “o que você pensou neste momento” ajudam a explorar na conversa a lógica usada pela pessoa e, assim, entendê-la melhor.

Entender o outro não significa, claro, deixar de apontar contradições, mas fazê-lo de maneira a compor um diálogo e estar disposto a ver outras perspectivas.

5. Ajudar o outro a expressar suas necessidades

O contrário de dar respostas ou conselhos não pedidos para alguém é, em uma escuta empática, pedir para que a pessoa diga como ela acha que outros podem agir para ajudá-la.

Em um discurso de formatura feito na Universidade de Harvard em 2016, o especialista em educação e reitor da Faculdade de Educação, James Ryan, elenca “Como posso ajudá-lo?” como uma das cinco questões mais importantes da vida.

“A forma como ajudamos é tão importante quanto ajudarmos em si mesmo. Perguntar como você pode ajudar é perguntar com humildade por orientação e reconhecer que os outros são os especialistas em suas próprias vidas e [reconhecer] que eles vão ajudá-lo tanto quanto você pode ajudá-los”, enfatizou Ryan.

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