5 frases que não parecem ofensivas (mas são) para deixar no passado

Aprendendo a praticar a comunicação não violenta (Foto: Getty Images)

Por Fernanda Lopes

A maioria das pessoas já deve ter passado por situações em que alguém disse algo muito desagradável sem nem perceber que estava passando dos limites. É muito comum que essas frases ressaltem também uma crítica ou até mesmo um preconceito velado, que a pessoa jamais teria coragem de dizer na cara do outro de forma sincera, mas não consegue esconder totalmente. Existe até uma expressão criada para explicar isso: “elofensa”, algo que parece um elogio, mas no fundo tem um quê de ofensa.

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Essa é uma prática muito negativa, tanto para quem fala quanto para quem ouve, pois prejudica a comunicação — além, é claro, do fato de que alguns “falsos elogios” têm origem em problemas sociais como racismo, gordofobia e ageísmo (a fobia em relação ao envelhecimento).

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“Sou responsável por aquilo que eu falo, não pelo que o outro entende’” é uma frase bem comum que ouvimos hoje em dia, pois na “boa intenção” em tecer elogios, quem fala, muitas vezes, não tem percebido o quanto afeta, e de que maneira”, diz a psicóloga e consultora educacional Andressa Pimentel, da Escola de Inteligência.

Para começar o ano de 2020 com uma comunicação melhor e livre de ideias ultrapassadas, veja alguns exemplos de frases que parecem elogios, mas não são:

"Você está ótima para sua idade" ou "Você parece mais jovem”

Vivemos numa sociedade em que ainda há um preconceito e um temor muito grande em relação ao envelhecimento, e frases como essas só reforçam essa barreira. Por que não dizer apenas “você está ótima”, independentemente da idade? Não há nada de errado em parecer ter a idade que se tem de fato e não viver numa busca frequente por rejuvenescimento.
 
"Você é uma negra muito bonita" ou "Uma negra com traços delicados"

Essas frases são claramente racistas, pois indicam que a mulher negra em questão é apenas bonita dentro dos limites de sua etnia ou que é bonita pois seus traços se parecem com os das pessoas brancas. Ambas as ideias são completamente erradas e calcadas no eurocentrismo, ou seja, que só o que é similar ao que vem da Europa é bem aceito. É preciso mudar urgentemente a perspectiva, respeitar e valorizar todas as etnias e seres humanos como são.

"Você é cheinha mas muito bonita de rosto" ou "Está muito melhor agora que emagreceu"

Essas frases na verdade são manifestações de gordofobia, a rejeição e o julgamento a pessoas acima do peso. A beleza nunca deve estar intrinsecamente ligada à magreza; inclusive o elogio ao fato de a pessoa ter emagrecido pode ser muito equivocado, já que magreza não é necessariamente sinônimo de saúde. Novamente, é preciso respeitar e enxergar a beleza de todos os corpos.

"Seu cabelo fica bem mais bonito liso"

O cabelo liso é um padrão de beleza eurocentrista que durante muitos anos reinou absoluto no Brasil, mas hoje não é mais assim. Mulheres crespas e cacheadas que assumiram seus cabelos naturais muitas vezes ouvem esse tipo de comentário, que não lhes acrescenta nada. Uma opinião desnecessária e ultrapassada, uma vez que ninguém é obrigada a se manter num padrão de beleza que lhe parece desconfortável. Não é correto se sacrificar para agradar os outros.
 
"Tem que ter coragem para usar tal roupa/pintar o cabelo de tal cor" ou "Você é muito corajosa para sair na rua desse jeito"

Essa frase demonstra que, no fundo, quem está falando desaprova ou rejeita o que a outra pessoa gosta, faz ou usa. É muito melhor dizer que “tal roupa/cor de cabelo ficou legal” ou apenas não dizer nada e respeitar a escolha alheia.

“Para alguns, esses são realmente elogios, pois estão imersos em um universo familiar e/ou até mesmo cultural, em que a reprodução dessas afirmações é aceita e considerada normal. Mas aí surgem questionamentos como: normal para quem? Por isso a importância de perceber as mudanças no mundo, o olhar mais apurado em relação à valorização do ser humano independentemente de sexo, idade, cabelo, peso, e a possibilidade de divulgação e disseminação dessa nova forma de pensar, agir e se relacionar”, diz a psicóloga.

Comunicação não violenta e empatia

As pessoas acostumadas a dizerem essas frases há anos podem não perceber que estão praticando uma comunicação violenta, em que não pensam em seus interlocutores e apenas dizem o que querem. Porém, pasmem, é possível fazer comentários sem agredir o próximo.

Andressa Pimentel cita o conceito de Comunicação Não Violenta, desenvolvido pelo psicólogo americano Marshall Rosenberg. O segredo está na prática e no esforço diário de cada um, na busca por uma comunicação melhor com as pessoas com as quais nos relacionamos e em cada contexto em que estamos inseridos. A profissional ensina a reparar em quatro passos:

Observação: olhar para as situações de forma concreta e não com o olhar do julgamento.
Identificação: notar quais são as emoções/sentimentos despertados quando se observa algo.
Necessidades: perceber minhas necessidades, como atendê-las e se responsabilizar por elas.
Pedido: dizer realmente o que se quer.

Além disso, é preciso também colocar em prática a empatia, de se colocar no lugar do outro e lembrar de que é preciso tratá-lo como ele gostaria, e não necessariamente como você considera melhor.

“Pode ser que o outro seja diferente de você, então cuide da sua relação e da sua comunicação com ele, isso é fundamental! Nunca teremos certeza do como o outro se sentirá ou reagirá diante daquilo que dissermos ou fizermos, mas podemos cuidar para que os ruídos da nossa comunicação diminuam e tenhamos um olhar mais atento e cuidadoso para com as nossas relações”, explica Andressa.