‘13 Reasons Why’ ou o bullying em 13 lições

Hannah (Katherine Langdorf) a protagonista suicida da série (Foto: Beth Dubber/Netflix)

Quando eu estava na sétima série – numa época em que ainda existia sétima série – meus pais resolveram me transferir do colégio público para um colégio particular. Um colégio religioso. Lá havia uma garota chamada Miriam. Era bonita e tinha o corpo mais desenvolvido do que o das outras garotas de sua idade – parece um detalhe, mas, naquele caso, fazia diferença.

Miriam também tinha a fama de ter ficado com todos os garotos mais velhos da escola (“ficado” não é exatamente a palavra, mas você entendeu). No intervalo das aulas, na cantina, na quadra todos comentavam sobre a Miriam “galinha”. E não só os meninos: as garotas, especialmente aquelas que sentavam na primeira fila, teciam comentários venenosos sobre ela. E os nerds do meio da classe, os “inofensivos”, íamos no embalo.

Um dia calhou de eu estar voltando do centro da cidade e Miriam entrar no ônibus. Me viu, sorriu e sentou-se ao meu lado. Era uma viagem longa – morávamos no extremo da zona sul de São Paulo – e viemos conversando sobre a escola, sobre o Masp (tínhamos ido em excursão na semana anterior), sobre a porcaria do transporte, sobre os professores chatos e legais.

E daí eu descobri que a Miriam “galinha” era uma garota normal, talvez até mais inteligente do que aquelas meninas da primeira fila. Mas o fato de eu ter descoberto isso por conta própria certamente não fez a menor diferença na vida de Miriam, que continuou com a fama de menina fácil até se formar na oitava série e sair da escola.

Não consegui parar de pensar na Miriam enquanto assistia a ‘13 Reasons Why’, a série da Netflix que estreou sexta-feira passada e que imediatamente virou objeto de discussão. Motivos não faltam – baseado no livro do escritor norte-americano Jay Asher, o drama em 13 episódio aborda assuntos delicadíssimos e perenes: suicídio, bullying, estupro.

Produzido pela cantora pop e atriz Selena Gomez, a série já era assunto mesmo antes de estrear. Selena ficara impressionada com o livro e resolveu transformá-lo em série. Compreensível: a trama é sobre uma turma na faixa dos 17 anos, idade de muitos dos seus fãs – e certamente alguns deles conhecem (ou viveram) histórias como a da protagonista Hannah Baker (Katherine Langdorf).

Hannah é uma garota que, pouco antes de se suicidar, resolve gravar uma série de fitas cassete contando as razões que a levaram a tomar a trágica decisão. São treze razões – ou melhor, treze pessoas. Hannah estabeleceu regras para que as fitas sejam ouvidas: elas passarão pelas mãos dos treze responsáveis, um por vez, que ouvirão a história e passarão para o próximo, até completar o ciclo.

A história começa no décimo primeiro ouvinte, Clay (Dylan Minnette), a paixão mal resolvida de Hannah, que conduz o espectador tal qual um detetive de filme policial. A cada episódio vamos descobrindo a sordidez e perversidade que envolviam a rotina de Hannah. Pior: nos deparamos com ações muito comuns no dia a dia de qualquer um que frequentou a escola. Na maioria dos casos essas ações parecem involuntárias e inocentes. Em outros são pura maldade humana mesmo.

’13 Reasons Why’ é muito realista em sua narrativa, nas cenas de estupro e suicídio (que chegaram a ser alvo de críticas por parte de alguns espectadores mais sensíveis), no jeito de apresentar esse cotidiano massacrante e corrosivo a ponto de levar um adolescente ao suicídio – ou ao homicídio em massa, como é comum nos Estados Unidos. E você não precisa ser um teen para ficar hipnotizado pela série. Basta lembrar das histórias dos seus tempos de colégio.

Chato mesmo é pensar que todo aquele bullying e assédio não acabam no colégio, mas continuam pela vida afora. Veja aí o recente caso envolvendo José Mayer.

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Por fim, vale a menção à fabulosa trilha sonora. Nada a ver com a oficial, que está rolando por aí e tem apenas 13 faixas. Estou falando daquela com dezenas de canções de Joy Division, The Cure, Elliott Smith, Vance Joy e St, Vincent entre outros. Felizmente alguém teve o bom senso de compila-las em uma playlist no Spotify. Veja a série e depois ouça. Vale cada minuto.