12 posts de Bolsonaro que resumem o primeiro ano no cargo

Brazil's President Jair Bolsonaro talks on his cell phone during a ceremony at Planalto presidential palace, in Brasilia, Brazil, Tuesday, July 23, 2019. (AP Photo/Eraldo Peres)

por Renato C. Abreu

Em uma época em que nações decidem seu futuro através das redes sociais, o ditado “diga-me com quem andas e te direi quem és” precisa ser atualizado. Quando o assunto é Jair Bolsonaro, a famosa frase poderia muito bem ser alterada para “diga-me o que twitas e te direi quem és”.

Ao final do primeiro ano de seu mandato, o presidente da República viu no Twitter seu maior (e pior ao mesmo tempo) aliado. Foi através da rede social que o político disseminou seus ideais ao longo da campanha presidencial, viralizando entre seus eleitores.

Entretanto, foi também nela onde se envolveu em grandes polêmicas que marcaram o início de seu mandato. Desde o dia 1º de janeiro até o momento, Bolsonaro publicou mais de 2 mil vezes na rede social, alternando ataques aos seus opositores a avanços promovidos por seu governo ao citar aliados como por exemplo Tarcísio de Freitas, ministro da Infraestrutura e Sergio Moro, ministro da Justiça. 

Na retrospectiva de 2019, relembre com base em suas publicações no microblog e também em outras redes sociais como Instagram e Facebook quais foram os destaques do ano de Bolsonaro. 

Janeiro

Impossível destacar o primeiro mês do novo presidente da República em outro tweet que não este. No dia 1º, Bolsonaro compartilhou o discurso que sua esposa, Michelle Bolsonaro, realizou durante a cerimônia de posse.

A primeira-dama inovou duas vezes. Primeiro por ter discursado antes de Bolsonaro e a segundo por se comunicar através de libras, na tentativa de sinalizar que o novo governo seria inclusivo.

O gesto, entretanto, logo foi relacionado à primeira polêmica do mandato do presidente. Dias após a posse, o então ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, extinguiu a secretaria de inclusão social, diversidade e educação de surdos.

Coerente?

Fevereiro

O atentado sofrido por Bolsonaro durante sua campanha em setembro de 2018, em Juiz de Fora (MG), ainda se mostrava presente na rotina do presidente em fevereiro deste ano. No início do mês, uma nova cirurgia precisou ser realizada para a retirada da bolsa de colostomia.

O procedimento, realizado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, durou aproximadamente sete horas. Na operação, foram unidos o intestino delgado e o intestino grosso. Até então essa seria a terceira cirurgia do presidente em decorrência do atentado. Ainda em 2019, Bolsonaro passaria por mais uma, desta vez para a retirada de uma hérnia na região da facada. 

Durante sua recuperação, que durou 17 dias, Bolsonaro despachou diretamente do hospital, onde recebeu ministros e apoiadores. Através do Twitter, compartilhou detalhes de sua rotina no hospital e comentou assuntos como a Reforma da Previdência superficialmente.

Sua principal publicação no Twitter foi sua alta, muito por conta do momento em que ficou internado. Segundo cientistas políticos, os primeiros 60 dias de um governo são cruciais para a aprovação de novas medidas, como a alteração das regras da aposentadoria, por exemplo.

O post foi curtido por mais de 80 mil pessoas, muitas delas enaltecendo o retorno do capitão ao seu posto, enquanto outras cobravam definições sobre o futuro da nação.

Março 

Com a chegada do mês de março, Bolsonaro promoveu seu maior deslize nas redes sociais até então. Durante o Carnaval, o presidente divulgou no Twitter um vídeo supostamente gravado durante um bloco de rua em São Paulo. O tweet foi removido horas depois, mas ainda assim se tornou um marco na breve história do militar no poder. 

“Não me sinto confortável em mostrar, mas temos que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades. É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro. Comentem e tirem suas conclusões”, disse o presidente.

A gravação mostrava dois homens durante um bloco conhecido como “BloCu” em São Paulo. No vídeo, um deles é visto urinando no outro, pouco depois de colocar o dedo no próprio ânus. Caracterizada como escatológica e pornográfica, a publicação gerou forte repercussão tanto no Brasil quanto no exterior, com milhares de usuários criticando a posição de Bolsonaro ao usar sua rede social desta forma.

A polarização tomou conta das redes sociais nos dias seguintes ao post. Entre as hashtags mais usadas, destaque para #ImpeachmentBolsonaro” e “#BolsonaroTemRazão”. Além disso, Bolsonaro publicou um novo tweet, desta vez perguntando “o que é golden shower?”, termo descrito pelos usuários do microblog para explicar o ato de urinar em outra pessoa. A publicação também viralizou rapidamente e foi apagada horas depois. 

Abril 

Em abril, Bolsonaro realizou uma conturbada para Israel, onde afirmou que o nazismo foi um movimento de esquerda durante uma visita ao Centro de Memória ao Holocausto Yad Vashem. Além disso, o presidente viu seus filhos criticando no Twitter ninguém menos que o grupo radical islâmico Hamas e demitiu o então ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez.

Apesar de tantos problemas, a publicação que marcou o mês do presidente foi relacionada ao horário de verão. No dia 5, Bolsonaro anunciou a descontinuação da medida em decisão baseada após recomendação do Ministério de Minas e Energia.

Segundo a pasta, o horário de verão não apresentava mais efetividade na economia de energia elétrica. Além disso, um estudo mostrou o quanto a mudança de horário afetava negativamente o relógio biológico dos brasileiros.

Como a maioria dos posts do presidente, a publicação dividiu opiniões entre apoiadores do horário e opositores. Mais de 67 mil pessoas curtiram o tweet e quase 10 mil debateram sobre o assunto. 

O horário de verão foi criado em 1931 e aplicado no país em anos irregulares até 1968, quando foi revogado. A partir de 1985, foi novamente instituído e vinha sendo aplicado todos os anos, sem interrupção. 

Normalmente, o horário de verão começava entre os meses de outubro e novembro e ia até fevereiro do ano subsequente, quando os relógios deveriam ser adiantados em uma hora em parte do território nacional. No dia 25, Bolsonaro assinou o decreto extinguindo a mudança.

Maio

Chocolates. Foi desta forma que Jair Bolsonaro e o ministro da Educação, Abraham Weintraub, explicaram o congelamento de 30% do orçamento de todas as universidades públicas do país, tema que desencadeou uma série de protestos por todo o Brasil, a maior até então no mandato do novo presidente. 

Diante da pressão popular após o anúncio do MEC, que paralisou pesquisas científicas e bolsas acadêmicas de milhares estudantes, Bolsonaro transmitiu sua tradicional live de quinta-feira nas redes sociais para acalmar os ânimos. A maneira, porém, não acalmou ninguém. 

Weintraub levou 4 caixas com 25 chocolates cada, representando o orçamento das universidades nacionais. "A gente está pedindo simplesmente que, três chocolatinhos, desses 100 chocolates, três chocolatinhos e meio. Três chocolatinhos e meio. Esses 3 chocolatinhos e meio a gente não está falando para a pessoa que vai cortar. Não está cortado. Deixa para comer depois de setembro. É só isso que a gente tá pedindo. Isso é segurar um pouco”, disse.

No Facebook do presidente, mais de 82 mil pessoas reagiram à transmissão. O vídeo rapidamente viralizou nas redes sociais, tornando-se mais um ponto negativo do mandato de Bolsonaro, que optou por tratar um assunto importante de forma infantil.

Junho

Em junho, Bolsonaro viajou para o Japão, onde participou de uma série de reuniões com chefes de Estado do G-20. A visita, entretanto, foi ofuscada por um escândalo envolvendo um militar que viajava em um avião da FAB que dava apoio à comitiva do presidente.

O sargento Manoel Silva Rodrigues, de 38 anos, foi preso na Espanha com 39 quilos de cocaína na bagagem. Ao saber do caso, Bolsonaro se manifestou através do Twitter e recebeu milhares de críticas. 

Julho

Já no mês seguinte, Bolsonaro fez mais um desafeto. Durante sua live semanal, se referiu ao pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, enquanto comentava o trabalho da entidade durante a investigação de Adélio Bispo, autor da facada no então candidato nas eleições presidenciais.

Em nome da classe jurídica, a OAB foi contra uma nova apuração dos advogados de Adélio, enfurecendo Bolsonaro. “Um dia, se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, conto pra ele. Ele não vai querer ouvir a verdade. Conto pra ele. Não é minha versão. É que a minha vivência me fez chegar nas conclusões naquele momento”, disse.

Fernando desapareceu em fevereiro de 1974 durante o governo Médici, depois de ter sido preso por agentes Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi). Segundo a Comissão da Verdade, ele foi "preso e morto por agentes do Estado brasileiro".

Em uma live transmitida nas redes sociais enquanto cortava o cabelo, Bolsonaro deu sequência ao assunto. “O contato não seria com ele, seria com a cúpula da Ação Popular de Recife. E eles resolveram sumir com o pai do Santa Cruz. Essa foi a informação que eu tive na época sobre esse episódio”.

Em resposta, a OAB emitiu uma nota onde diz que "o Estado Democrático de Direito e tem entre seus fundamentos a dignidade da pessoa humana, na qual se inclui o direito ao respeito da memória dos mortos." O caso foi levado pelo presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, ao Supremo Tribunal Federal (STF), que deu duas semanas para Bolsonaro esclarecer a declaração.

Agosto 

Em agosto, Bolsonaro protagonizou a pior crise internacional do Brasil nos últimos tempos. Diante de uma série de incêndios que atingiram a Floresta Amazônica, o presidente precisou lidar com críticas externas e mostrou falta de tato na diplomacia.

Presidente da França, Emmanuel Macron se destacou entre os críticos mais ferrenhos à política ambiental de Bolsonaro. Segundo ele, o brasileiro mentiu sobre os compromissos climáticos do país, ameaçando inviabilizar o acordo entre União Europeia e Mercosul, selado meses atrás.

No dia 22, Macron defendeu em seu Twitter que as queimadas fossem tema da próxima reunião da cúpula do G7. A declaração não foi bem aceita por Bolsonaro, que também usou a rede social para rebatê-la.

Bolsonaro lamentou que o francês "busque instrumentalizar uma questão interna do Brasil e de outros países amazônicos p/ ganhos políticos pessoais. O tom sensacionalista com que se refere à Amazônia (apelando até p/ fotos falsas) não contribui em nada para a solução do problema".

Logo em seguida, Bolsonaro fez um comentário em uma publicação que mostrava uma comparação entre os dois presidentes e suas respectivas esposas. "Não humilha cara. Kkkkkkk", disse o brasileiro, referindo-se às idades de Michelle e a mulher de Macron.

"O que eu posso dizer? É muito triste. Mas é triste para os brasileiros. Eu acredito que as mulheres brasileiras devem estar envergonhadas do presidente", disparou o francês.

Após a troca de ofensas, a cúpula do G7 determinou que o grupo, formado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido, enviassem US$ 22 milhões para ajudar no combate às chamas. Entretanto, Bolsonaro afirmou que só aceitaria o apoio caso se Macron retirasse os insultos feitos contra ele. 

Setembro

Bolsonaro se revoltou contra a Advocacia-Geral da União (AGU), que se manifestou a respeito da possibilidade de estados criarem leis que proibissem a “ideologia de gênero” nas escolas do país.

Irritado com o posicionamento da AGU, o presidente determinou que o MEC criasse um projeto de lei para selar a proibição. A publicação no Twitter gerou forte repercussão nas redes sociais, abrindo um novo debate sobre tema.

O órgão já havia feito uma manifestação a respeito do assunto em 2017, durante o governo de Michel Temer. Da mesma forma, a AGU defendia que somente a União e o Congresso Nacional podem determinar tais leis, e não o Estado.

Outubro 

No final de outubro, Bolsonaro se descontrolou novamente, desta vez durante um desabafo contra a TV Globo. Enquanto realizava uma viagem à Ásia, o presidente foi tema de uma reportagem da emissora, que ligou seu nome à morte da vereadora Marielle Franco (PSOL), no ano passado. Visivelmente irritado, o presidente ofendeu a emissora e ameaçou a renovação de concessão no futuro.

O Jornal Nacional noticiou uma reportagem apontando que um dos suspeitos da morte da vereadora se reuniu com o ex-policial militar Ronnie Lessa, outro acusado pelo crime, no condomínio do presidente, no Rio de Janeiro. Vale destacar que a visita ocorreu no mesmo dia da morte da vereadora.

Ao entrar, o homem teria dito ao porteiro do local que iria na casa de Bolsonaro. No dia e horário, entretanto, o nome do presidente consta na lista de presença da Câmara dos Deputados em Brasília. A citação do nome tornou obrigatório que o Supremo Tribunal Federal investigue o caso.

"É uma canalhice o que vocês fazem. uma ca-na-lhi-ce, TV Globo. Uma canalhice fazer uma matéria dessas em um horário nobre, colocando sob suspeição que eu poderia ter participado da execução da Marielle Franco, do PSOL”, disse.

"Temos uma conversa em 2022. Eu tenho que estar morto até lá. Porque o processo de renovação da concessão não vai ser perseguição, nem pra vocês nem para TV ou rádio nenhuma, mas o processo tem que estar enxuto, tem que estar legal. Não vai ter jeitinho pra vocês nem pra ninguém", disparou o presidente.

Novembro

Um dos maiores temores de Bolsonaro se tornou realidade em novembro. O Supremo Tribunal Federal determinou por 6 votos a 5 o fim da possibilidade de prisão de condenados em segunda instância, um entendimento adotado em 2016. Os ministros julgaram que ninguém pode ser considerado culpado até o trânsito em julgado, quando todos os recursos são realizados.

A medida beneficiou diretamente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde abril de 2018 após ser condenado em duas instâncias no caso do tríplex do Guarujá (SP). O ex-presidente cumpriria pena de 8 anos, 10 meses e 20 dias.

petista deixou a prisão dias depois da decisão. Em resposta, Bolsonaro destacou apenas um trecho de um discurso realizado na cerimônia de formatura de agentes da polícia federal. “Não dê munição ao canalha, que momentaneamente está livre, mas carregado de culpa”, pediu.

Dezembro 

Para completar seu primeiro ano como presidente da República, Bolsonaro fez uma publicação onde reafirmou sua opinião sobre uma pauta fortemente defendida pela esquerda. O post trata-se de um vídeo onde o jornalista Sérgio Camargo fala sobre o dia da Consciência Negra.

Tem que acabar o dia da Consciência Negra, porque é uma data que da qual a esquerda se apropriou para propagar vitimismo e ressentimento racial. Isso não é uma data do negro brasileira, é uma data de minorias empoderadas pela esquerda, que propagam ódio e divisão racial”, disse.

Camargo foi eleito presidente da Fundação Cultural Palmares e é conhecido por dar declarações polêmicas. O jornalista chegou a dizer que o Brasil tem “racismo Nutella” e também que a “escravidão foi benéfica para os descendentes de negros”.

Entretanto, ele teve sua nomeação suspensa após determinação do juiz federal substituto Emanuel José Matias Guerra, da 18ª Vara Federal de Sobral (CE). Segundo ele, a nomeação de Camargo ao cargo "contraria frontalmente os motivos" que levaram à criação do instituto.