Último debate repete troca de acusações entre Paes e Crivella que marcou campanha no Rio

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Considerado a última oportunidade para mudanças relevantes nas disputas eleitorais pela grande audiência e proximidade com o dia da votação, o debate promovido pela TV Globo entre os candidatos a prefeito do Rio, ontem à noite, foi marcado neste ano pelo tom repetitivo entre o atual prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) e de seu adversário, o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM), que lidera as pesquisas de intenção de voto com larga margem. Crivella insistiu em fazer acusações de corrupção relacionadas à gestão de Paes, que inicialmente evitou responder os ataques, embora depois tenha contra-atacado, e lamentou que o candidato à reeleição não tratasse de propostas.

Se por um lado figuras nacionais, como o presidente Jair Bolsonaro, não foram citadas no debate, por outro os candidatos buscaram associar um ao outro a governadores que foram alvo de operações por corrupção. No fim do debate, Crivella se referiu ao adversário como “Eduardo Cabral”, numa referência ao ex-governador Sérgio Cabral. Paes devolveu chamando-o de “Crivella Witzel”, dizendo que o atual prefeito lembra o governador afastado Wilson Witzel.

A pandemia da Covid-19 pouco foi citada no debate. No primeiro bloco, o candidato do DEM citou o tema brevemente, ao criticar a atual gestão por falta de insumos e médicos em clínicas da família. O assunto só retorno no terceiro e último bloco, depois que Crivella citou compras de equipamentos para hospitais municipais antes da pandemia, enquanto Paes se comprometeu a reabrir leitos fechados e fazer testagem em massa na população.

A futura gestão da secretaria de Saúde também foi alvo de trocas de acusações. Crivella citou uma determinação judicial de bloqueio de bens, em 2017, contra Daniel Soranz, já anunciado por Paes como seu titular na pasta, caso seja eleito. Paes, por sua vez, criticou a atual secretária de Saúde, Beatriz Busch, e também negou que trabalhará em seu governo com a organização social Iabas, alvo de denúncias de corrupção junto ao governo do estado durante a pandemia.

Logo no primeiro bloco, Crivella repetiu alegações de seu adversário “rouba, mas faz” e afirmou que Paes seria preso durante o mandato, o que levou o candidato do DEM a receber direito de resposta. Crivella também ganhou direito de resposta, depois que Paes devolveu os ataques e afirmou que o adversário “morre de medo de ser preso” e o acusou de “defender interesses de seu grupo”, numa referência que incluiu também a Igreja Universal do Reino de Deus, da qual o prefeito é bispo licenciado.

Quando aderiu à troca de ataques, Paes acusou o adversário de “desespero” e reutilizou a expressão “pai da mentira”, repetida no debate anterior, da TV Band. O ex-prefeito também questionou Crivella sobre um telefone do prefeito ao empresário Rafael Alves enquanto era alvo de operação Ministério Público como operador de um suposto “QG da Propina” na prefeitura.

— Se tem ação na Justiça, deixe que ela decida. Há ações contra você e contra mim. Nesse seu desespero, você não consegue fazer outra coisa que não seja mentir, atacar — afirmou Paes.

Crivella respondeu dizendo que não é réu “em nenhuma ação”, ao contrário do ex-prefeito, e devolveu a citação ao QG da Propina pedindo que Paes explicasse sua relação com o marqueteiro Marcelo Faulhaber, que mantinha contato recorrente com Rafael Alves, segundo as investigações do MP. Faulhaber, que trabalhou na campanha de Crivella em 2016, rompeu com o prefeito e se reaproximou de Paes, com quem já havia trabalhado anteriormente, em 2018.

— O mandamento diz “não roubarás”, e o povo na rua diz: “rouba, mas faz”. Essa coisa de “rouba, mas faz” não dá certo, depois ficam frutos amargos — rebateu Crivella.

Enquanto Paes, que lidera as pesquisas de intenção de voto, procurava se esquivar do tom bélico trazendo temas municipais ao debate, como o atendimento à população de rua e a manutenção do BRT, Crivella repetiu que “mais importante do que propostas é conhecer o caráter das pessoas”. O primeiro diálogo entre os dois candidatos sobre gestão municipal foi sobre o financiamento da prefeitura ao desfile das escolas de samba na Marquês de Sapucaí, já no fim do primeiro bloco. Paes sugeriu que a hesitação do atual prefeito em liberar patrocínio às escolas do Grupo Especial poderia estar ligada a “perseguição religiosa”. Na resposta, Crivella afirmou que o adversário só financiava o carnaval por promoção pessoal e para “desfilar com chapéu de Zé Pelintra”, referindo-se a um termo das religiões de matriz africana, muitas vezes usado de forma pejorativa.

— Respeito muito o samba, tanto que dupliquei os recursos na Intendente Magalhães, o verdadeiro canarval do povo. Eduardo queria desfilar com chapéu de Zé Pelintra, pegava o dinheiro das pessoas para se promover — acusou Crivella.

Em outro momento acalorado do debate, o prefeito voltou a repetir falsas acusações de que o PSOL apoiaria Paes numa tentativa de implementar “ideologia de gênero nas escolas”. Na réplica, Paes lembrou que Crivella foi condenado pela Justiça Eleitoral a conceder direito de resposta ao partido, afirmou ter se mostrado “contra ideologia de gênero, legalização das drogas e aborto” em seus oito anos de governo e fez referência a duas situações passadas: a um discuso do bispo Edir Macedo, líder da Universal e tio de Crivella, em defesa do aborto em certas situações previstas pela legislação, e também à nomeação de César Benjamin, filiado ao PSOL, como o primeiro secretário de Educação da atual gestão.

— Sou contra o aborto. Seu tio, aliás, é a favor, e nem por isso eu digo que você é a favor. Quem botou o PSOL no governo foi você, com seu secretário de Educação — afirmou o ex-prefeito.