É Tudo Verdade amplia versão online para alcançar quem está preso em casa

LEONARDO SANCHEZ E WALTER PORTO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Diversas mostras de cinema ao redor do mundo, como o Festival de Cannes e o americano SXSW, adiaram ou cancelaram sua programação por causa da pandemia do novo coronavírus. O festival É Tudo Verdade, principal vitrine de documentários do país, não foi diferente. Quer dizer, mais ou menos.

Ainda que a maior parte da programação de lançamentos frescos tenha sido postergada para setembro, a organização do festival decidiu manter, na data de abertura original, boa parte das mostras paralelas e alguns dos destaques inéditos. Só que na internet.

Nesta quinta (26) a versão digital do É Tudo Verdade começa a ser disponibilizada em plataformas de streaming parceiras. Originalmente estavam previstos 15 títulos para a mostra online, e o número mais que dobrou: serão 31, abrindo um total de 64 horas de streaming para o consumo de cinéfilos presos em casa.

"É um gesto de solidariedade nosso neste momento dramático da história brasileira", diz Amir Labaki, diretor do festival. "Foi a melhor forma que encontramos de auxiliar pessoas a ficar em casa, com arte e cultura de alto nível no meio desse deserto em que estamos todos ilhados."

Nas plataformas digitais parceiras, será possível encontrar, por exemplo, seleções especiais de títulos de documentaristas mulheres e uma triagem do crème de la crème dos premiados nos primeiros anos do festival -o É Tudo Verdade faz uma comemoração agridoce de seus 25 anos ininterruptos em meio à pandemia mais ameaçadora do último século.

Cerca de 40% do conteúdo online já estará disponível nesta quinta, mas a ideia é manter algo do ritmo de festival, soltando a programação aos poucos, ao longo dos dias.

O espectador já pode ver, por exemplo, 2 dos 13 episódios da série documental "A Herança da Coruja", do francês Chris Marker, um dos destaques da programação (depois, entra no ar um episódio por dia).

Marker é um dos principais nomes da geração da nouvelle vague sessentista, mais próximo da turma de Agnès Varda e Alain Resnais apelidada de "margem esquerda", cuja militância aproximava a arte de um potente ativismo social.

Mas "A Herança da Coruja" mostra um Chris Marker já desencantado com a esquerda após os conflituosos anos de Guerra Fria. "Marker esteve fortemente comprometido com a política enquanto ativista cinematográfico", relembra o produtor Thierry Garrel, envolvido na série desde sua concepção.

"E também enquanto cidadão do mundo, então confrontado com as desilusões do comunismo, prestes a colapsar", continua. "Essa série foi, de certa maneira, sua tentativa de contribuir para a reformulação de um novo humanismo, desesperadamente necessário. Um tipo de prolegômeno para uma enciclopédia dos nossos tempos."

Marker é também uma figura essencial na evolução do formato documentário e, nas palavras de Labaki, "um dos grandes experimentadores da história do audiovisual". Seu curta de ficção científica "La Jetée", de 1962, é uma obra incontornável nos estudos de cinema.

"A Herança da Coruja", de 1989, foi sua primeira (e última) série para a televisão.

Em cada uma das 13 partes, ele se dedica a investigar um aspecto diferente do legado da Grécia Antiga para os nossos dias ("democracia", "misoginia", "filosofia"), adaptando o formato de cada episódio às melhores necessidades do assunto que está sendo tratado.

O primeiro episódio é centrado, quase integralmente, numa espécie de banquete dionisíaco de intelectuais -a base da argumentação são entrevistas com personalidades como George Steiner, Elia Kazan e Vassilis Vassilikos, autor do livro que deu origem ao clássico "Z", de Costa-Gavras.

Thierry Garrel relembra e celebra a presença desses e de outros nomes na produção. Questionado sobre o que mantém a relevância da série 30 anos depois de seu lançamento, ele não hesita: "A extrema qualidade dos protagonistas que Marker conseguiu reunir".

"Pense que, até onde eu sei, essa é a única aparição nas telas de um filósofo gigante como Cornelius Castoriadis. George Steiner, que morreu recentemente, também faz reflexões inesquecíveis sobre democracia e política, assim como Kostas Axelos", diz o produtor.

"Incrivelmente, o único dos 13 episódios que ficou levemente ultrapassado é 'Matemática', por ser uma ciência exata que desde então evoluiu para diversos novos campos."

No segundo episódio da série, também já disponível, Marker reflete sobre as Olimpíadas -e recorre a rodo a imagens de arquivo.

Este episódio dialoga diretamente, aliás, com "Olympia 52", longa de estreia do documentarista que já ponderava sobre a herança dos gregos ao registrar os Jogos Olímpicos de Helsinki, daquele ano.

Resgatar essa série de três décadas atrás, segundo Labaki, é importante porque "é um modelo de como não há modelo para fazer séries não ficcionais". "Vai contra a corrente das séries documentais de streaming de hoje, que têm pegada investigativa, meio Agatha Christie. Faz você ver que dá para usar esse tipo de série para pensar o mundo."